quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A emergência do discurso histórico na crônica de Fernão Lopes

O artigo “A emergência do discurso histórico na crônica de Fernão Lopes” é de autoria de Valdei Lopes de Araújo e de Bruno Gianes. O referido artigo foi publicado na Revista de História e estudos Culturais, no trimestre Abril/Maio/Junho de 2006, contendo vinte páginas.

Valdei Lopes de Araújo é professor adjunto da Universidade Federal de Ouro Preto. Possui graduação (1995) e mestrado (1998) em Historia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; doutorado (2003) em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com estágio PDEE na Universidade de Stanford. Valdei Lopes possui também uma vasta produção bibliográfica.

Bruno Gianez possui graduação em História (2006) pela Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente é bacharelando na Universidade Federal de Ouro Preto, membro do conselho editorial da revista eletrônica Cadernos de História e recém ingresso no programa de pós-graduação (mestrado) da Universidade Federal Fluminense. Suas pesquisas são direcionadas a Fernão Lopes, a pesquisa de mestrado trás como título “A crônica portuguesa no Quatrocento - o discurso histórico nas crônicas de Fernão Lopes (1380/90-1459?) e Gomes Eannes Zurara (1410/20-1473/4)”, Orientado por Guilherme Pereira das Neves; e sua pesquisa de graduação tem por título “A economia do poder no baixo medievo português - as crônicas de Fernão Lopes (1380/90-1459?)”, com orientação de Valdei Lopes de Araujo.

Os autores relatam que Fernão Lopes nasceu, possivelmente, entre 1380 e 1390 em Lisboa e foi nomeado Guarda-mor da Torre do Tombo e escrivão de D. Duarte em 1418, como comprova o mais antigo documento a respeito dele. Em 1419 ele já havia começado a escrever as crônicas dos sete primeiros reis de Portugal, mas só em 1434 recebe a ordem oficial para tais relatos, por D. Duarte. O cronista foi legalmente aposentado, provavelmente, em 1459, devido a sua idade avançada; Gomes Eanez Zurara assume então a sua função de relator e guarda das escrituras.

Fernão Lopes viveu na época da ocorrência da Revolução de Avis, tendo assim convivido com os seus protagonistas Nuno Álvares Pereira, D. João I e a população, chamada de "arraia miúda", que foram os defensores da independência de Portugal em relação ao reino de Castela; revolução esta que só teve fim em 1411. Lopes presenciou então os fatos constituintes de sua ultima crônica a respeito de D. João I e sua ascensão ao trono. Vale lembrar que Lopes deixou incompleta essa sua ultima obra, que ao final conteve três capítulos, dos quais, somente os dois primeiros foram escritos por ele.

Os autores afirmam que Fernão Lopes teve maior liberdade para narrar os fatos a partir da Revolução de Avis, “abstendo-se o quanto pode do texto laudatória na busca pela isenção histórica, passível de uma verdade capaz de recontar com çertidom os acontecimentos” (ARAUJO e GIANEZ 2006: 02, 03)

De acordo com os autores, Lopes antecipou elementos do discurso histórico moderno, ou seja, na metade do século XV Fernão Lopes já se utilizava de subsídios do discurso histórico moderno. Suas crônicas romperam com as tradições medievais de um discurso fabuloso para relatar a “verdade nua”, tanto é que ele mesmo afirma que em suas crônicas não encontrariam a beleza das palavras, mas a nudez da verdade.

O artigo, do qual a resenha se refere, está dividido em três partes, cada uma com uma abordagem a cerca de Fernão Lopes e sua maneira de registrar a história dos reis portugueses; as abordagens referem-se à, respectivamente: “mundanall afeiçom” e “verdade nua” (prólogo primeiro); relação do discurso histórico com outras tradições discursivas (prólogo segundo) e, por ultimo, “naturalidade” e “ser português”.

O primeiro capítulo do artigo expressa a obsessão de Fernão Lopes em busca da verdade para relatá-la em sua crônica. O cronista, pesar de viver em contato com a realeza e os grandes personagens de Portugal, tinha a intenção de escrever a “verdade nua”, tanto é que ARAUJO e GIANEZ (2006: 07) afirma que:

Fernão Lopes conhecia os desvios que à afeição corria e imbui-se no “carrego dordenar estórias”, conservando o espaço de autonomia do discurso histórico frente aos modelos tradicionais do campo letrado “ornamental” e à “mundanall afeiçon”, a qual fluía sobre todas a “gemtes”, almejando a composição de uma “verdade nua”. Logo, inicialmente, trata de atribuir-se a isenção e autoridade necessária para o trabalho, afirmando que o lugar do cronista deve pôr “adeparte toda afeiçom”, concentrando-se na verdade, mesmo que denuncie “comtrarias causas”, desabonadoras do ascender da dinastia avisina.

Fernão Lopes, de acordo com os autores, para escrever suas crônicas, pesquisava diversas fontes em busca da realidade dos fatos, uma vez que tinha conhecimento da existência da “mundanall afeiçon” que compreende o modo subjetivo do relato histórico humano. Essa afeição levava alguns historiadores a desviar da direita estrada, e correr per semideiros escusoa [...] “impedindo o justo recontamento dos fatos” (ARAUJO e GIANEZ 2006: 06). Dessa maneira, Fernão Lopes não encontraria a verdade almejada nem em cronistas tradicionais tão pouco em pessoas favoráveis a Catela, visto que o prólogo primeiro da Crónica Del rei Dom Joham I trata da Revolução de Avis.

A “mundanall afeiçon” atingia a todos os narradores dos fatos. No entanto, Fernão Lopes detecta, de acordo com os autores, que existe uma subjetividade intrínseca na natureza humana que não pe influenciada pelo servilismo; é nessa subjetividade intrínseca que habita a verdade nua buscada pelo cronista.

Percebe-se nesse artigo o diferencial de Lopes em relação aos demais cronistas de sua época; ele é um cronista preocupado com a realidade doa acontecimentos, ele não se prendia, diferentemente dos outros cronistas, à ornamentação nem ao louvor ao rei, louvor esse que o próprio cronista nomeia de “fingido louvor”.

Valdei e Bruno finalizam esse capítulo do artigo relatando a credibilidade fornecida a Lopes, que produziu suas crônicas por meio de consultas a vários documentos, dos quais descartava o excesso de elogios aos nobres personagens e conservava o segundo patamar de subjetividade do texto, descrito pelos autores como natural que ganhará a forma de um relato realístico.

Fernão Lopes encontra certa dificuldade ao se deparara como prólogo segundo da crônica. Até esse ponto ele havia somente relatado acontecimentos da revolução, a partir de agora ele iria discorrer a cerca da vida do então rei D. João I, e para isso a “verdade nua”, tão presada pelo cronista, teria dificuldades em aparecer. Isso porque existiam convenções e modelos a respeito do relato da história dos reis.

O cronista fica diante de um dilema: prosseguir com a sua promessa de apenas relatar a realidade dos fatos, sem exageros e ornamentos ou, ceder às convenções e escrever um panegírico igual ao dos cronistas que o precederam. Fernão Lopes decidiu-se por escrever um panegírico diferente dos usuais: faria um texto com apenas um esboço dos bons feitos do rei. Faria isso apenas para cumprir com a formalidade. ARAUJO e GIANEZ (2006: 12) confirmam esse método:

A resolução de Fernão Lopes produz um efeito de destaque discursivo. O panegírico entra na estrutura narrativa como uma espécie de recorte, um tipo de material que, como muitos outros, não estão garantidos pelo procedimento metodológico que Lopes movimenta para certificar a veracidade de seu relato. O tom protocolar do texto é apenas mais um elemento a destacá-lo da narrativa. As descrições estereotipadas do panegírico destoam profundamente da forma como Lopes constrói seus personagens, especialmente o rei, privilegiando um relato realístico, cheio de detalhes, exibindo sem comiseração as contradições e ambigüidades dos homens envolvidos no processo.

Vadei e Bruno mencionam que Lopes, após escrever sobre os feitos do rei, percebeu a necessidade de explicar essa retomada do modelo tradicional de croniciar os fatos. Evidencia-se assim o comprometimento do cronista com a verdade dos relatos, tanto é que, em toda a crônica, há “um narrador ativamente engajado em organizar o fluxo de informações, sempre cuidando de manter aceso o interesse d leitor, a ordenação do texto e a qualidade de verdade apresentada” (ARAUJO e GIANEZ 2006: 14).

Os autores finalizam esse terceiro capítulo do artigo abordando as características de um escrivão/cronista: tem a capacidade de mostrar a verdade inteira e a não contradição. A voz do cronista precisa sobressair em uma sociedade onde é evidente que os fatos são, em sua grande maioria, transmitidos oralmente, sendo assim, as versões de um mesmo acontecimento são diversas, aí então é que o cronista avalia a verdade e a relata.

O quarto e ultimo capítulo do artigo tem inicio com os autores abordando a quatão da naturalidade. Para eles a “mundanall afeiçon” é um elemento a ser corrigida nas narrativas ouvidas pelo cronista ao pesquisar, ela é causada pelo pertencimento do homem a determinado lugar, mas ela é também condição para se chegar à verdade dos fatos.

Lopes percebe que a “mundanall afeiçon”, sem as marcas do servilismo, com o amor natural à terra, trazia um princípio da verdade. Exemplifica-se isso com a luta do povo português pela liberdade e proteção de seu território na Revolução de Avis. A noção de naturalidade levaria então Portugal a emancipação política. Sobre a naturalidade na crônica de Fernão Lopes VALDEI E GIANEZ (2006: 17,18) afirmam:

A perspectiva do natural está na própria construção dos personagens. D. João, na parte primeira, embora já descrito sob um matiz régio, ainda é um protagonista imerso nas diferentes e inacabadas formas humanas de comportamento conhecidas por Lopes. Apresentando o Mestre como personagem que sofria da ausência de parentesco mais direto com a monarquia, mas, segundo Rebelo, possuidor de “carisma de poder”, arraigado sob a proteção do “poboo”, que simbolizava a vontade legítima dentro do contexto da “revolução”, Fernão Lopes cria uma atmosfera de verdade inerente ao ser português.

No trecho citado os autores referem-se ao personagem Mestre de Avis que mais tarde seria ascendido ao trono de Portugal.

Segundo os autores a ascensão de D. João I só poderia ser descrita se ele, além de apresentar-se humano, demonstrasse as atitudes cabíveis de um rei de um enredo de cavalaria.

A cerca da maneira rompedora com a tradicional de se croniciar, VALDEI e GIANEZ (2006: 19) ressaltam:

Assim, Fernão Lopes tentou conciliar tradição cavaleiresca e consciência subjetiva, dando maior evidencia, claramente, à segunda. Consentindo com a caracterização vacilante, temerário e manipulável do Mestre queria, enfim, firmar a na verdade num padrão humano de comportamento, distante dos modelos disponíveis na tradição panegírica, Fator que contribuía para a análise generalizante do aspecto humano e para a multiplicação dos agentes históricos.

Finalizando o artigo, os autores mencionam mais uma vez a participação evidente da "arraia miúda" na definição política ocorrida em Portugal.

Os autores deixam claro em seu artigo que Fernão Lopes buscava um acerta indiferença em relação aos fatos; precisamente, ele queria contar em suas crônicas somente a verdade dos acontecimentos, justamente por isso ele inovou em sua maneira de croniciar. Peter Buke, em seu texto A história dos acontecimentos e o renascimento da narrativa, focaliza a dificuldade existente para ser indiferente em uma narrativa:

A narrativa não é mais inocente na historiografia do que o é na ficção. No caso de uma narrativa de acontecimentos políticos, é difícil evitar enfatizar os atos e as decisões dos líderes, que proporcionam uma linha clara à história, à custa dos fatores que escaparam ao seu controle. No caso das entidades coletivas – a Alemanha, a Igreja, o Partido, Conservador, o Povo etc. – o historiador narrativo é forçado a escolher entre omiti-los completamente ou personificá-los, e eu concordaria com Huizinga em que a personificação é uma figura de retórica que os historiadores deveriam tentar evitar. Ela obscurece as distinções entre os lideres e os seguidores, além de encorajar os leitores sem grande imaginação a suporem o consenso de grupos que estavam freqüentemente em conflito. (BURKE 1992: 330,331 )

É possível ainda mais uma vez citar Peter Burke para tentar mensurar e grandeza da obra e do método utilizado por Fernão Lopes ao croniciar:

No caso da história milita em particular, John Keegan observou que a narrativa tradicional está levando as conclusões erradas, com seu “alto foco sobre a liderança” e sua “redução dos soldados a peões”, e necessita ser abandonada.

O cronista de quem se trata o artigo resenhado, no século XV, já tinha essa visão que John Keegan defende: a não valorização exclusiva da liderança. Como visto, Fernão Lopes rompeu com o modelo tradicional à sua época, para escrever de maneira clara, relatando, como ele mesmo nomeou: a “verdade nua”.

BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, V. L e GIANEZ, Bruno. A emergência do discurso histórico na crônica de Fernão Lopes, Revista de História e Estudos Culturais: 2006.

BURKE, Peter (org). A escrita da história: novas perspectivas. Editora da UNESP, 1992.

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