A obra O livro da guerra grande conta a história da guerra que foi marcada pela instabilidade política e fragilidade econômica que dizimou grande parte de uma geração entre 1865 e 1870. Entre o fantástico presente na obra estão fatos históricos que realmente aconteceram no período da guerra do Paraguai.
Durante os longos governos de José Gaspar Rodrigues de Francia (1813-1840) e de Carlos Antonio López (1841-1862), o Paraguai teve um desenvolvimento bastante original em relação ao dos outros países sul-americanos. A política de Francia e de Carlos López foi sempre a de incentivar um desenvolvimento econômico auto-suficiente, mantendo o maior isolamento possível em relação aos países vizinhos.
Foram retomadas tradições indígenas abandonadas pelos colonizadores, como a de realizar duas colheitas anuais. As represas e canais de irrigação, pontes e estradas feitos pelo governo e a valorização do trabalho comunitário elevaram a produtividade do trabalho agrícola.
O governo controlava todo o comércio exterior. O mate, o fumo e as madeiras raras exportados mantinham a balança comercial com saldo. O Paraguai nunca havia feito um empréstimo no exterior e adotava uma política protecionista, isto é, de evitar a entrada de produtos estrangeiros, por meio de impostos elevados. Defendia o mercado interno para a pequena indústria nacional, que começava a se desenvolver com base no fortalecimento da produção agrícola.
Francisco Solano López, filho de Carlos Antonio López, substituiu o pai no governo, em 1862, e deu prosseguimento à política de seus antecessores.
Os personagens históricos são reais, assim como as datas presentes na obra e fatos ocorridos durante o período das batalhas e onde elas aconteceram.
O crescimento econômico exigia contatos com o mercado internacional. O Paraguai, como se sabe, é um país sem litoral.
Seus portos eram fluviais e seus navios tinham que descer o Rio Paraguai, depois o Paraná, para chegar até o estuário do Prata, e só daí alcançava o mar.
Os ditadores, Imperiais, soldados e suas batalhas. Amores, traições e tragédias todos relatados com base na história.
A obra começa com relatos históricos no capítulo Frente à frente argentina, em que meio a ficção encontra-se o fato das batalhas como a batalha de Curupaytí. A história de acordo com BASTOS,(2002:29)
A História se faz com datas. Bem, o encontro de Yataity-Corá foi em 3 de setembro, general. No dia 22 houve a batalha de Curupaytí que lhe mostrei na pintura.
Este trecho faz referencia a Conferência fracassada de Yataity-Corá entre Bartolomé Mitre, Venâncio Flores e Solano López, sem a presença do Brasil, que se recusou a participar da reunião, Vênancio Flores abandona a conferência logo em seu inicio.
Entre as diversas batalhas, destacaram-se a do Passo da Pátria, a de Estero Bellaco e a primeira Batalha de Tuiuti, vencida pelos aliados em 24 de maio de 1886. Curuzu foi tomada de surpresa pelo barão de Porto Alegre, mas Curupati resistiu ao ataque de 20 mil argentinos e brasileiros, com o apoio da esquadra brasileira.
Não somente as batalhas foram relatadas, mas também o que a guerra trás de pior como as doenças, decorrentes da má alimentação e péssimas condições de higiene causou muitas mortes, a Epidemia de cólera, por exemplo, que atingiu as tropas aliadas. Segundo BASTOS (2002:30)
Este rio cheio de bocas não poderia vomitar mais aguadas e aguaçais, nesta imundície de cólera e varíola, febre e diarréia.
Consta também o fato do livre comércio de mercadorias proposto por França.BASTOS menciona (2002:35)
Dexar passar, mestre. Que é preciso deixar passar?O livre trânsito da mercadoria para o comércio, pintor. Suas poções berrantes vêm da França, você pinta com mucilagens e alumens importados, sua colofônia provém de terras gaulesas.
Nos fatos trazidos no capítulo Em frente à frente paraguaia, começam os relatos de destruição de um país e sua população, a perda das tropas e como tiveram que enfrentar a guerra sem soldados. Bastos cita um pequeno trecho de Burton para descrever o final da guerra.
No final de 1870, pouco depois de terminada a guerra, mas não a destruição e o saque do país sob forças de ocupação, Richard Francis Burton publicou seu livro Cartas dos campos de batalha do Paraguai, muito inferior aos outros em qualidade literária e magia criativa, mas superior a todos eles como crônica do holocausto de um povo. “Um povo que vai desaparecer sem deixar rastros”, Afirma o autor do prefácio. (BURTON)
Com as tropas dizimadas o Paraguai se viu obrigado a colocar as mulheres e crianças nos combates. Com isso o Paraguai sofreu grande redução em sua população. A guerra acentuou um desequilíbrio entre a quantidade de homens em sua população, e o país até hoje não se recuperou.
Continuando o relato do final da guerra BASTOS menciona (2002:56, 57)
Das anfractuosidades da cordilheira seguiu com seu binóculo os últimos combates de um punhado de pigmeus, barbudos e espectrais com lanças de taquara, contra os superarmados esquadrões da cavalaria brasileira, apoiados pela artilharia de grosso calibre.
Pois nesta época o Paraguai já utilizava crianças e mulheres em combates por isso o relato de Burton sobre “pigmeus, barbudos”.
Outro fato histórico que consta na obra é o financiamento da guerra pelo império britânico, a Inglaterra foi a maior beneficiada com o conflito, que barrou o aparecimento de uma corrente comercial e lucrou com os juros dos empréstimos contraídos.
Solano explicou ao cônsul, documentos na mão, que a iníqua guerra que estava devastando o país havia sido instigada e financiada pelo império britânico, empenhado na expansão do câmbio livre.
Em Fundação, apogeu e ocaso do Quilombo do Gran Chaco o autor volta a citar a presença de mulheres na batalha final do Paraguai e também fala sobre o bombardeio e uso da tecnologia de balões.
Assim como também volta a falar sobre as doenças e pestes, segundo MACIEL (2002:111)
Mais tarde, os índios recrutas cochichavam coisas a seu respeito a meia voz. Um deles, depois de tomar aguardente, contou que a índia era a última sobrevivente de um grupo que tinha vivido no Chaco e que pouco a pouco se foi extinguindo devidos às pestes, às quais, segundo parece, era especialmente vulnerável. A índia fugiu quando a pele de seus familiares ficou coberta de erupções avermelhadas. Quando voltou às choças, todos os que tinham ficado estavam mortos.
O quilombo do Gran Chaco era uma comunidade formada por pessoas que fujiam da guerra, libertos, fugitivos, índios e mulhere.cita MACIEL (2002:123)
Índios mal adaptados à civilização, pessoas a quem a guerra havia espantado das cidades, libertos que cruzaram a fronteira fugindo de seus donos, pardos desertores dos quatro exércitos mestiços de todo o tipo, soldados prófugos e mulheres vindas ou trazidas de todos os lugares formam a população desse refúgio, ao qual o liberto Luvio batizou de ‘Quilombo do Gran Chaco’.
"Nós nos fixamos na premissa de refundar um lugar que talvez nunca tenha existido: o Quilombo del Gran Chaco", conta Roa Bastos. No auge da Guerra do Paraguai, argentinos, brasileiros, paraguaios e uruguaios teriam esquecido eventuais diferenças e se unido numa comunidade. Eram os conjurados do Quilombo del Gran Chaco: soldados, civis e oficiais que desertaram tanto do exército paraguaio de Solano López quanto das forças de Brasil, Argentina e Uruguai, unidos na chamada Tríplice Aliança.
O Quilombo do Gran Chaco era uma comunidade coletiva que tinha como objetivo acabar com a guerra.
Maciel fala das mulheres presentes nas batalhas de um modo diferente, fala de mulheres que assim como as outras pessoas, se cansam, e temem as batalhas e sentem medo. MACIEL (2002:140, 141)
Ontem à noite me acordaram para avisar que alguma coisa insólita tinha sucedido. Um batalhão de mulheres guerreiras do Paraguai chegou às portas para pedir hospedagem para si e seus cavalos, todos vencidos pelo cansaço, pela sede e pela fome. [...] A comandante retornou ladeada por duas companheiras e nos pediu algumas seguranças antes de deixar suas armas. Fiz um gesto com a cabeça e a mulher me advertiu que não
Confiava na palavra dos homens, pedia para ver alguma mulher de nossa cidade.
Em 28 de fevereiro de 1868 a esquadra brasileira bombardeia Assunção, com pouca resistência por parte dos paraguaios. MACIEL (2002:158).
‘Estão ameaçando bombardear’, acaba de avisar alguém, quando o Téo da igreja é atingido por uma sacudidela violenta que destrói parte das molduras do teto. Alguma coisa daquilo que cai – certamente escombros – fere meu braço esquerdo e começo a sangrar. Do lado de fora, as criaturas desesperadas uivam entre os cânticos e as ordens para fazer andar os aparelhos que arrastam a maquinaria de madeira. O que pensará o comandante Souza ao ver o importante cavalo avançando na direção de seu exercito? Há um refugio e parece que uma bala de canhão atingiu um cavalo. Este começa a lançar fogo como se tivesse sangrando no peito enquanto os homens que estão dentro gemem, certamente presos entre as armações das entranhas do mostro.
Luis Alves de Lima e Silva, na época marquês de Caxias, chegou ao Paraguai em novembro de 1866. Assumiu o comando geral e reestruturou o Exército. Sob a orientação de Caxias, os aliados, depois de demorado cerco, derrotaram a principal fortificação paraguaia, a de Humaitá, em 25 de julho de 1868. Entrando no país, Caxias, em vez de avançar para a capital, já desocupada pela população e bombardeada pela esquadra, marchou para o sul e iniciou a Dezembrada, uma série de vitórias obtidas em dezembro de 1868: Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura.
No capitulo seguinte Os papeis do general Rocha Dellpiane fala sobre o diário de guerra argentino atribuído ao capitão Francisco Paunero, que foi guardado pela sua descendente.
Omar Prego narra o trabalho investigativo de um escritor que procura nas cartas, pistas oficiais de um uruguaio e de sua participação, pela ordem do Quilombo Del Gran Chaco, no assassinato do presidente Venancio Flores em 1868.
O acaso (no qual não creio) me conduziu, pouco depois de ter lido o diário de guerra argentino atribuído ao capitão Francisco Paunero, não a essa eventual testemunha (todos os participantes daqueles sangrentos episódios já morreram), mas à derradeira descendente de um dos nebulosos heróis daquela matança.
É quando ele começa a narrar seu curso investigativo, de ir até o casarão da descendente do general Rocha Dellpiane, lá a sra. Rosa Rocha Saavedra havia guardado caixas de informações sobre o general, cartas que ele escreveu, recortes de jornais e seu diário particular. GADEA (2002 : 164, 165).
[...] A sra. R Rosa Rocha Saavedra havia acabado de legar ao Arquivi Geral da Nação um baú contendo material que ainda não tinha começado a ser inventariado, e que até aquele momento permanecia em poder da descendente do militar, que García Vieira aproveitou para classificar como sendo um “prócer menor”.
Explicou-me que mal havia tido tempo de dar uma olhada naquele “profuso material”, que incluía cartas e anotações, além de algo que parecia ser um livro de memórias ou romance. Havia também recortes de jornais e de revistas da época. “De repente, podem existir dados valiosos. Quem sabe não encontramos pistas dessa conjura, da qual fala o capitão Paunero?”, perguntou.
O escritor admite que talvez um pesquisador profissional teria encontrado pistas que ele não conseguiu encontrar. GADEA (2002:172).
Admito que um pesquisador mais atento talvez encontrando algumas pistas esclarecedoras sobre a participação do general Rocha Dellpiane no assassinato do general Flores, ou que pelo menos servissem para saber se as motivações foram efetivamente as invocadas (a existência de uma conjura incipiente, cujo objetivo seria pôr fim à Guerra do Paraguai), ou se na verdade encobriam propósitos menos altruístas.
A legitimidade da guerra passou a ser questionada pelos positivistas brasileiros, após o golpe militar que derrubou o Estado Monárquico em 1889, e instalou a República no Brasil.
A nova realidade política era ambígua quanto a Guerra do Paraguai, pois os dois militares de maior patente que participaram do golpe, generais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, haviam lutado no conflito com reconhecida bravura e não manifestaram dúvidas quanto a sua validade. Contudo, o novo regime republicano tinha embasamento ideológico positivista e intelectuais adeptos deste pensamento, coerentes com seu caráter pacifista, condenaram a Guerra do Paraguai. Eles também atuaram, assim como outros aderentes da República, com a finalidade de justificar a nova realidade política brasileira e uma forma de fazê-lo era criticando homens e acontecimentos da história do Brasil Monárquico, inclusive o conflito com o Paraguai.
Por temerem uma restauração monárquica voltaram-se principalmente contra Pedro II, que tinha sido uma figura popular, e mesmo após sua morte, em dezembro de 1891, esse temor persistiu por algum tempo.
O Barão relata seus pertences todos da época da guerra, e fala disso com orgulho, relata que sua casa é como seu país, uma vez todo foi novo agora tudo tinha envelhecido no capitulo Um barão não mente, envelhece.
Eric Nepomuceno relata o resgate da descendência de um dos conjurados do Quilombo do Gran Chaco, o VII Barão de Ramalho, que entra na justiça para que tenha o direito de ter o título de barão para isso ele busca todo sua genealogia, desde seu bisavô.NEPOMUCENO (2002:203).
Nada disso importa. Eu, que nem tenho Ramalho no nome, sou o VII Barão de Ramalho. Só isso conta.
O Barão relata seus pertences todos da época da guerra, e fala disso com orgulho, relata que sua casa é como seu país, uma vez todo foi novo agora tudo tinha envelhecido no capitulo Um barão não mente, envelhece.
Durante muito tempo após a guerra ouve uma censura com os documentos da época da guerra, somente os militares e historiadores podiam lê-los, e o que se sabia da guerra eram por relatos, assim como os que aparecem neste ultimo capítulo, segundo NAPOMUCENO (2002:216).
Esta moça não sabe nada da Guerra do Paraguai. Nenhum brasileiro nascido em 1972 sabe coisa alguma dessa guerra, e quase nada da história deste país. Alias, pensando bem, os nascidos em 1948, como eu, também não sabem grande coisa.
Eric também faz uma referencia de como ficou o país após a guerra e assim como os outros autores afirma a destruição do país NAPOMUCENO (2002:216).
E desando a falar: hoje, o Paraguai tem metade da população que tinha quando a guerra começou; é um país pobre, atrasado; foi, mais que uma guerra, um extermínio, um genocídio covarde como todos os genocídios. Quando acabou, o país acabou junto; quase não havia homens adultos; as mulheres vagavam sem destino, avassaladas pelos vencedores; um horror.
E no final do capitulo Napomuceno fala do envelhecimento do barão, “Porque os barões têm esse defeito: com o passar do tempo, costumam envelhecer.”
NEPOMUCENO, E., MACIEL, A., GADEA, O. P., ROA BASTOS, A. O livro da guerra grande. Rio de Janeiro: Record, 2002.
POMER, L. Paraguai: nossa guerra contra esse soldado. São Paulo: Global, 2001.
Maira de Oliveira Ferreira